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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

08
Mar19

Adultos-criança

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"Saiu, esta sexta-feira o disco "Canções De Roda, Lenga Lengas E Outras Que Tais". Conta com interpretações de Ana Bacalhau, Jorge Benvinda, Sérgio Godinho e Vitorino", ouvi ali pela hora do almoço na Antena 1. 

Era um disco de canções infantis. Daquelas da nossa infância. Do "Ah Ah Ah Minha Machadinha" ao "Indo Eu, Indo Eu A Caminho de Viseu". 

Pensei eu que isto não seria um espécie de "Xana Toc-Toc" ou "Panda e os Caricas" (com todo o respeito pelo seu trabalho). Não, isto é outra coisa! Isto tem de ser outra coisa! Fiz então o teste e lá vim eu a ouvir o disco no Spotify. Estrada fora! Numa das minhas viagens longas de fim de semana. Em modo normal porque este disco não é para se ouvir em random

Dei por mim várias vezes a cantar (e com sentimento, diga-se!) aquelas músicas: ficam gravadas na nossa memória como se fosse um carimbo! 

Mas há momentos em que os artistas param a música e, simplesmente, falam. E talvez seja esse o momento em que a minha longa viagem muda de assunto. Talvez não estivesse à espera de ouvir o Sérgio Godinho ou a Ana Bacalhau a contar histórias ou do Vitorino a relembrar a sua infância. 

Por momentos, voltei a alguns momentos da infância onde me lembro de ver os miúdos do "lugar" a jogar à bola ou às escondidas. 

Nas primeiras noites quentes de maio, quando as meninas eram uma descoberta recente para além das brincadeiras do costume (brincar aos médicos, às casinhas, merceeiros e compradoras), lá escolhíamos aquela a quem dar a mão para organizar a roda que tinha mais importância se tivesse muita gente. (...) Era assim que começava tudo! Naquelas noites mornas, com o tempo todo para brincar no largo de terra batida que parecia enorme mais pequeno e diferente e, entretanto, já foi calcetado. 
- Vitorino 

Ainda me lembro do "tacho livre a todos", do "em cima do piano está um copo de licor de que cor sem pensar" ou do "o aviãozinho atirou a bomba ao ar a que terra foi parar sem pensar"! 

A leitura do Vitorino trouxe-me rapidamente à memória os vários jogos até ao terceiro ano, das lengalengas que, olhando à distância, não faziam sentido nenhum. Menos para nós: numa inocência perdida com o virar de ciclo, aquilo era o nosso mundo e éramos felizes, mesmo que os pais tudo fizessem para mudar a ordem natural das coisas.

"Não vão para a estrada! Olhem os carros!" 

Frase repetida até à exaustão! Mesmo que a estrada estivesse deserta no domingo à tarde. 

Depois, tudo desapareceu. Aos poucos. Como devem ser os ciclos. Os miúdos do "lugar" foram crescendo.

"Ó Mamã, por que é o Jorge e a Margarida não vêm brincar?", perguntei eu. Resposta pronta: "Porque eles têm de estudar para a escola!"

O "lugar" continua o mesmo: o sítio onde dávamos "tacho livre a todos" continua lá. O largo está "calcetado" mas continua lá! Há outras crianças no lugar e a estrada continua deserta ao domingo à tarde! Nada mudou mas tudo mudou ao mesmo tempo. 

"Não vais lá para fora: olha que ainda vem um homem e leva-te!"

"Não vais lá para fora: olha que ainda cais!"

"Não vais lá para fora: olha que..."

Tantos "olha que" e tão poucos "não vais lá para fora sem mim!". Precisamos de crianças mas precisamos tanto de "adultos-criança" de vez em quando! E eu senti-me criança outra vez com este disco. 

19
Jul18

Os meus pais não são avecs!

Amine Rock Hoovr

 

Sou filho de emigrantes! 

Os meus pais foram embora de Portugal porque não havia forma de ter uma vida estável. Foram embora para me dar uma educação, para me pagarem um curso... 

Sou filho de emigrantes e tenho orgulho nisso! 

Mas não: os meus pais não são avecs.

Quando vêm a Portugal, eles trocam o "bom dia" pelo "bonjour", o "olha!" pelo "regarde!" ou o "quanto?" pelo "combien?". Contam as histórias do trabalho, vibram quando vêem um galo de Barcelos na feira e têm orgulho de vestir a camisola da Seleção. 

Talvez o meu pai goste de ouvir o "Sou português emigrante/Chora, chora/Linda chora!" ou o Tony Carreira num volume para lá dos décibeis normais! 

Talvez a minha mãe tenha um sotaque estranho (que toda a gente deteta menos eu!) e que a denuncia como emigrante. 

Mas não: os meus pais não são avecs. 

Os avecs não são aqueles que berram um "Jean-Michel, tu vas tomber caralho!" num espaço público! 

Os avecs são aqueles que se dizem portugueses mas, à primeira oportunidade, dizem que "Portugal? C'est la merde!" Os avecs são aqueles que alugam um carro na "France" e dizem que é seu! Os avecs são aqueles que se esquecem das origens, de quem são, do que foram fazer lá para fora! Precisam de provar, a "toute le monde", que são melhores do que aqueles "provincianos lá de Portugal". 

São aquele esterótipo de merda que se cola a todos os tugas lá da "France".

Está no nosso sangue de português típico querermos ser melhores que o nosso vizinho. Aliás, somos o único povo que se consegue dar bem em qualquer lado... menos em Portugal.

Os avecs e o português típico não aprenderam uma coisa: humildade! Porque o português típico é o rídiculo que critica tudo mas não tem tomates para sair; os avecs são os rídiculos que saíram mas que olham de uma forma superior para quem cá fica. 

No fundo, todos eles são rídiculos por se acharem superiores. 

Não: os meus pais não são avecs!.

Os meus pais são emigrantes. 

Os meus pais dizem com orgulho que são portugueses. Os meus pais têm o galo de Barcelos, um crucifixo e uma Nossa Senhora na mesma mesa. Os meus pais pagam a assinatura da TVI para ver o "Somos Portugal", mesmo quando eu digo que isso é (lá está!) parolo! Os meus pais tiveram-nos no sítio para sair daqui e olham para Portugal contando os dias para ter aqueles quinze dias durante o mês de agosto para voltar à terra. O Skype aproxima mas não substitui o abraço apertado de uma zona de chegadas do aeroporto! 

Eu tenho quatro abraços do meu pai por ano: dois em agosto e dois em dezembro. Sempre no mesmo local! Sempre no aeroporto! Quando estou com eles, sei que, ao fim de dois dias, com eles sinto-me exausto. Querem saber da minha vida. Logo eu que deixei de dar satisfações! Querem saber onde vou, com quem vou, quando volto... 

"Hoje não vais!" 

"Pai, tenho 26 anos!"

Mas no fim, quando vão embora, voltar à rotina custa! Passamos as três semanas seguintes a ligar todos os dias, a perguntar se está tudo bem, a falar por todas as aplicações possíveis. E querem ver como está tudo: se todos ficaram bem.

"Logo à noite, vais estar na casa dos avós? É que quero falar para eles! Por onde? Pelo Skype!", diz a minha mãe.

Armamo-nos em fortes, engolimos a saudade e continuamos as nossas vidas... 

13
Ago16

Chama-se liberdade, meus amigos...

 

A liberdade para criticar está muito na moda: por um lado, há sempre grupos "organizados" nas redes sociais que reclamam de quem diz uma piada sobre um tema sensível; por outro esses grupos "organizados" têm liberdade para reclamar sobre o que quer que seja. 

Admito: sou um reclamador profissional. No entanto, não reclamo "porque sim": reclamo quando tenho uma razão, ainda que mínima, para o fazer. Não gosto muito de críticas negativas (afinal, quem gosta?). Mas recebo-as. Escuto-as. Interiorizo-as. Matuto. Durmo sobre a questão. No dia seguinte, vamos lá melhorar os erros. 

Quem é meu amigo nas redes sociais sabe que, quando escrevo algo por lá, uso de um humor caraterístico: tento olhar para uma notícia e vejo como me posso rir com aquilo. E como fazer os outros rir também!

Tal como na vida, tento ir buscar aquele pormenor: olho bastante para o que está à minha volta e concentro-me nos pequenos detalhes, naquilo que as pessoas deixam passar. Epah! Deixem-me ser feliz assim! 

Gosto de que tenham opiniões diferentes das minhas. Dá para debater sobre vários pontos de vista. 

E sabe do que gosto também? Da minha terra! Da minha "santa" (porém beata) terra que tem temas tabu muito bem definidos. 

Neste momento, estou bloqueado na página de Facebook da junta da minha freguesia. Razão? Oficialmente, não sei! Nunca comentei rigorasamente nada naquela página! Apenas, e como sou estudante deslocado, gosto de me manter a par daquilo que se faz pelo lugar onde nasci e cresci. 

No entanto, e apesar de não saber quais as razões que me levaram ao bloqueio, posso suspeitar. 

Um simples "A sério que vão trazer o X? Não tinham uma coisa melhor?", escrito no meu perfil foi a razão. Foi das poucas vezes que escrevi sobre a minha freguesia no Facebook. Sobre a bendita festa popular em honra à Santa. Nenhum comentário anterior à freguesia tinha sido negativo.

Ora, o meu perfil de Facebook não é aberto! Aquilo que publico é por camadas: alguns conteúdos são publicados para algumas pessoas, outros para outras mas nada é para o público geral. Ora, posto isto era fácil descobrir quem podia ter sido culpado: tinha que ser meu amigo, ser da minha freguesia e teria de ter algo a ver com a junta. E não existiam muitas pessoas nessa posição. 

Se tinha razões para criticar a escolha? Sim. Normalmente, os artistas que estão na berra (o artista tinha acabado de lançar um dueto com um cantor internacional) fazem concertos fracos quando vão às festas ao ar livre. E também não gosto propriamente da música que ele faz.

Resultado: o concerto do cantor foi um fiasco . No entanto, o bloqueio continua. 

Nunca pedi satisfações a quem quer que seja sobre isso. Não tenho medo de ir à junta perguntar: "Ó faxabor, bloquearam-me porquê?". Apenas tenho mais que fazer.

Aquilo que fiz, no meu espaço para um grupo limitado de pessoas, foi dar a minha opinião. Seja certa, seja errada, é a minha opinião! Tenho direito a ela! E não abdico dela! Chama-se liberdade, meus amigos... 

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