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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

26
Jul16

Engolir sapos...

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O cliente tem sempre razão!

Tretas! Não: o cliente não tem sempre razão!

Convencionou-se lamber as botas dos clientes porque o cliente tem sempre o direito de preferir a empresa X em vez da empresa Z. Por diversas razões: porque tem melhor serviço, é mais rápida, porque tem uma gaja boa no atendimento. E essa é a arma do cliente: o poder de mudar. Só porque acha que "tem sempre razão!", mesmo quando não a tem. 

E esse poder dá direito ao cliente de fazer tudo: no entendimento do cliente, quem presta o serviço tem de fazer tudo o que o cliente pedir! Se assim não for, ameaça-se uma empresa, o funcionário, o gerente. Ameaça-se de queixas nas autoridades. Todos aqueles que colaboram com a empresa são incompetentes. Mesmo que, na função que se desempenha, não haja rigorosamente nada a apontar. Mas, naquele momento, quem está a atender o cliente é um incompetente. 

E o funcionário? Engole mais um "sapo". 

Um "sapo" dificil de engolir. Dificil de digerir.

Porque se fez tudo para servir o cliente. Mas o cliente quer mais. E mais. E mais. E o cliente tem sempre razão. Por isso, toca a engolir mais um sapo. E outro. E outro. 

Muitos clientes, quando se dirigem a serviços/lojas/etc., pensam que aqueles que os atendem são burros e, por essa razão, estão naquela função. Acham que há uma superioridade moral perante os seres reles que os atendem. Como se o ser que atende o cliente tem de saber tudo sobre ele. Tem de saber. Tinha de saber. É um incompetente! A incompetência começa na chefia e acaba no funcionário. 

E o funcionário? Engole mais um "sapo". 

Mas os funcionários têm que estar com um sorriso para atender o próximo cliente... mesmo que o anterior o tenha rebaixado ao nível do subsolo. Afinal, o cliente "tem de ser levado nas palminhas das mãos"! 

O leitor deve estar pensar que, se calhar, sou da opinião da retirada de direitos aos consumidores. 

Não, de todo. 

No entanto, ao dar-se direitos, se calhar, os consumidores desaprenderam a ser pessoas que respeitam quem está a trabalhar para eles, desaprenderam comportar-se em sociedade. É aquela fase do "Posso fazer o que me apetece porque eu tenho sempre razão"! 

E esse sapo custa a engolir... 

 

16
Jul16

Nice... ou a força da imagem!

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Foto: Nice-Matin

As imagens do atentado de Nice chocam... e muito! 

Chocam pela crueldade de quem atentou contra a vida de centenas de pessoas. Chocam pelo ato em si! Chocam por muitas mais razões. 

Mas são imagens que não devem ser censuradas. 

"Sejamos racionais no tratamento das imagens deste crime!", pediram as redes sociais. 

Vamos ser realistas e honestos: já passaram imagens na televisão em que nos perguntámos "Porquê?". Desde corpos decepados em horário nobre a massacres em direto, passando pelo sexo ao vivo para milhões, de tudo a caixinha mágica já deu aos espetadores ávidos de sangue, suor, lágrimas e porrada! 

Não consigo ter uma opinião formada sobre se as imagens dos atentados de Nice deviam ou não ser divulgadas. 

Por um lado, não se "dissemina o medo"; por outro, oculta-se a realidade! E os jornalistas são, em última instância, os gatekeepers dessa realidade.

Ocultar o que se passou (porque não emitir imagens é uma ocultação, na minha opinião!) não é solução: as pessoas vão procurar onde essa informação está! É como os adolescentes que não ouvem falar de sexo em casa e vão procurar (des)informação na internet!

E mostrar as imagens "dissemina o medo".

Esta não entendi! Como é que divulgando as imagens dissemina o medo? O medo já está instalado! O atentado aconteceu num local onde não devia ter acontecido e onde as pessoas se deviam sentir seguras e felizes. 

Podemos falar do "bom gosto" (um conceito demasiado lato!), do respeito humano, de mil e uma coisas que o jornalista deve ter quando está em direto.

Durante este atentado de Nice, uma jornalista do canal público francês France 2 esteve em direto num especial de informação que a estação emitiu ainda durante a noite do dia 14 para 15 de julho. 

O direto incluiu uma entrevista que chocou muitos: a jornalista recolheu um testemunho de um homem cuja esposa havia falecido minutos antes. "Uma reação em direto para a France 2, por favor!", pediu a reporter.

O que chocou mais foi o facto a esposa estar mesmo ali ao lado, coberta por um pano. O homem estava ajoelhado ao lado e contou ao microfone da estação pública francesa de como ele esteve ali vários minutos a tentar reanimar a vítima mortal.

O vídeo está disponível aqui.

A estação pediu desculpas.

Entretanto, o chefe de redação adjunto do canal, Olivier Siou, justificou-se no Twitter. Em resposta a um tweet de um utilizador (que o questionou sobre os conteúdos da emissão especial e não sobre este excerto em específico. ), o jornalista respondeu assim: 

 

Ora aqui está o fundo da questão: acreditaríamos, num mundo em que a imagem é fulcral e em que tudo é fotografado para colocar no Instagram, que o atentado aconteceu senão houvesse imagens do sucedido? 

Muitos não acreditam que bin Laden morreu porque não há imagens desse momento. 

Acreditariamos num atentado numa sala de espetáculos em Paris, senão víssemos as pessoas a fugir nos vários vídeos difundidos?

Acho que não!

No entanto, o leitor deve estar a pensar: "Não é preciso emitir imagens tão explicítas!". 

A frase "O atentado de Nice fez oitenta e quatro mortos: dez eram crianças!" não tem o mesmo impacto que ver uma imagem de um corpo de uma criança, coberto por um lençol, com a sua boneca ao lado. 

Choca? 

Sim!

Mas tomamos a verdadeira perceção da realidade. 

14
Jun16

Reflexão casual

Há mal no mundo. 

E pior, há prazer no mal que se faz. 

Há um prazer malvado em fazer-se mal a outrem. Porque sim. Porque se quer. Porque simplesmente se convencionou.

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de perfil para as cores do arco-íris como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

"#SomosTodosOrlando"! É mentira! Porque não o somos. Tal como não somos todos Charlie. Porque não nos vemos como pessoas iguais. 

E, nesta desigualdade, há ainda quem consiga tirar prazer na maldade... na maldade de se achar superior. 

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de perfil para as cores de uma bandeira como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Queremos acreditar que evoluímos como seres inteligentes que somos. 

Infelizmente, regredimos! Para pior! Porque o mundo é um lugar em que nos deixamos engolir pela informação em cascata, pelos gatinhos, pelos vídeos de fails e de casais a fazer sexo numa praia com a filha ao lado. 

E o mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E mudar a foto de capa com uma imagem cheia de mensagens de paz e amor como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Já sei onde vou partilhar este texto: no meu perfil do Facebook. E no meu Twitter. E no meu Instagram. E no meu LikedIn. E vou receber um like, e depois outro. E outro.

Eish. Tantos amigos que tenho. Não conheço metade. Mas são meus amigos. Estão lá. Os números não mentem. 

E eu como reajo? Com gostos e partilhas... e snaps. E coloco uma imagem de uma frase pirosa da Beyoncé, do Fernando Pessoa ou de outro indivíduo qualquer.

Porque ninguém tem nada a ver com o que faço na minha vida. 

E reajo ao que me rodeia. Aos acontecimentos de Orlando, aos atentados em França, na Nigéria. Todos são iguais. Todos levam com a hashtag #PrayFor. Sou tão bom com o mundo. 

Quero mostrar. Quero sentir que os outros viram. 

Sou hipócrita! 

Mas somos todos. 

Já o Fernando Pessoa dizia que o poeta era um fingidor. E eu sou um poeta. Um poeta que olha para o mundo. É certo que é pela redes sociais. Mas o social não é o novo real? 

Tenho amigos mas nunca os vi. Tenho inimigos que não me fazem mal e os posso banir. E todos sabem onde estou porque eu tiro sempre a selfie da praxe. 

E o meu mundo como reage? Com gostos e partilhas... e snaps. E colocar a foto da noite passada como se isso fosse mudar uma realidade que aconteceu. 

Mas não muda. As redes sociais não mudam nada. Fazem "bola" pelo mundo. Aliás, fazem: apagam-nos, limitam o nosso sentido crítico, limitam aquilo que nos rodeia. 

Porque o mal do mundo não se compadece com gostos e partilhas. 

O mal do mundo não se compadece com fotos da National Geographic de refugiados sírios. 

O mal do mundo não se compadece com os mortos num atentado num país africano ou numa discoteca nos Estados Unidos. 

O mal do mundo é toda a gente. Todos nós contribuímos em algo para este mal. 

Tomei a decisão de viver mais a vida. Deixar as redes sociais um pouco de lado e usá-las para aquilo que elas servem: trabalho.

Vou tentar deixar de olhar para o pôr-do-sol como uma ótima foto do Instagram.

Olhar para um situação engraçada e rir-me. E depois contar aos outros numa conversa à volta de uma mesa de café. 

Ver um concerto sem tirar uma foto. 

Olhar para o mundo e ver que todos são iguais e que todos têm direito aos mesmos direitos. 

Ou, simplesmente, olhar para o mundo e apreciá-lo.

Se calhar, no final, serei mais feliz...

20
Jan16

Call Centers

Telefones antigos

 

Preâmbulo: nunca trabalhei num call center, tenho todo o respeito por quem lá trabalha e sei que, por diversas eles aturam atitudes de certos clientes que, se essas pessoas fossem filhos meus, levariam uma lambada nas fuças.

Posto isto... 

 

A minha relação com a minha operadora de telecomunicações já teve melhores dias. Há falhas constantes na internet e o serviço é caro demais para o serviço que estou a ter. 

Antigamente, se havia um problema com um serviço (banda larga móvel, por exemplo), ia-se a uma loja, falava-se com o funcionário que nos aconselhava e, na maior, trocava o cartão do telemóvel ou resolvia o problema. Hoje em dia, seguindo os paradigmas da modernidade europeia, mentes brilhantes tiraram a forma dos clientes se queixarem em loja e puseram-nos a queixarem-se para a "linha". 

O serviço está lento? Ligue para a linha!

O router está a arder? Ligue para a linha! 

Não tem rede para telefonar? Ligue para a linha! Só eles o poderão ajudar! 

Ligar para um serviço de apoio a clientes custa dinheiro. É um serviço de apoio, é certo, mas o preço que se paga pelos serviços ao fim do mês inviabilizam, por completo este argumento: Portugal é o que paga mais pelos serviços 3P, 4P ou 5P de toda a União. Não se justifica pagar 120€ [como eu vou ter que pagar este mês] por um serviço que engloba um serviço de televisão, internet, telefone, telemóvel e banda larga móvel quando em França, por exemplo, o mesmo tipo de serviço custa à volta de 60€.  

Ora, posto isto, a minha relação tende a degradar-se e, muito em breve, conto anunciar o divórcio.

No entanto, enquanto não há divórcio, exijo que o meu serviço seja coincidente com aquilo que pago à operadora. 

E exijo que, quando ligo para um serviço de apoio a clientes, os operadores não me tentem "atirar areia para os olhos": os meus anos em frente a um computador levaram-me a que perceba um pouco de tecnologia e domine alguns conceitos. 

Foi exatamente isso que aconteceu hoje. A rede Wi-fi cá de casa funciona mal: a rede desliga todos os equipamentos ligados a si, sem motivo. Inicialmente, ainda pensei que fosse um outro sinal Wi-Fi emitido por outro equipamento cá de casa. Mas não! A falha vinha mesmo desta rede. 

Liguei para o serviço de apoio. Após uma série de testes e despistes técnicos, a operadora dá o seu veredito [o diálogo foi mais ou menos assim]: 

 

Operadora: O que se passa, Sr. Bruno, é que existe um problema de isolamento num cabo algures em sua casa ou entre a sua casa e o poste mais próximo. Não lhe consigo precisar! Por isso, temos de mandar um técnico a sua casa para verificar a situação." 

Bruno: Espere aí! Vamos lá ver se eu percebi bem: está a dizer que... a rede sem fios falha... porque existe um cabo que está mal isolado da parte de fora da minha casa? É isso que está a dizer?

Operadora: [breve pausa] Sim! 

 

Acredito que um cabo esteja mal isolado. Afinal, que cabos ficam bem isolados depois do mau tempo das últimas semanas? Mas daí a dizer que a rede Wi-Fi falha devido ao isolamento de um cabo fora de casa, vai uma grande diferença. 

 

Wi-Fi is the name of a popular wireless networking technology that uses radio waves to provide wireless high-speed Internet and network connections.

- Vangie Beal in "Webopedia" [http://www.webopedia.com/TERM/W/Wi_Fi.html]

 

Wi-Fi usa ondas de rádio. ONDAS DE RÁDIO! Mas se o cabo emitir ondas de rádio, avisem e digam-me a frequência. Quero sintonizar para ouvir coisas novas.

Voltando ao tema do post, este atendimento [e outros que já tive] demonstram a forma como os operadores são lançados aos leões [clientes, entenda-se] sem o mínimo de preparação. Afinal, há sempre gente a querer trabalhar: se se for incompetente, há sempre alguém a para ocupar o lugar. 

Gostava apenas de pedir uma coisa: que tal começar a pensar mais nos clientes e na competência de quem os atende e menos nos milhões de lucro que metem ao bolso todos os meses? 

Falta formação nos call centers. Fala humanidade nos call centers. E, acima de tudo, falta apoio aos clientes nos call centers

08
Jan16

#jesuischarlie

Logo Charlie Hebdo

 

Fez ontem um ano que a calma do meu estágio, iniciado praticamente no dia anterior, foi abalada por uma situação sem precedentes. Relembro a cara de choque de todos aqueles que se reuniram na redação da rádio Alfa para ver desfilar as imagens e as informações na televisão de um ataque que tinha conhecido momentos antes na redação de um jornal pelo qual praticamente nunca tinha ouvido falar. 

A informação era pouco clara: tiroteio no jornal Charlie Hebdo. Várias mortes confirmadas. 

"Mas o que é que raio é o Charlie Hebdo?", perguntei eu para os meus botões, alma caridosa vinda de Portugal para estagiar numa rádio portuguesa num país estrangeiro. Tinha começado o estágio vinte e quatro horas antes e não estava a perceber o alcance daquilo.

O que era o Charlie Hebdo? E um tiroteiro? Afinal era um jornal que tinha publicado imagens do Maomé em 2010? Mas porquê? 

Acho que naquele momento ninguém pensou o que era aquilo tudo: pensavam que era mais um maluco que tinha entrado aos tiros. 

Quando as informações começaram a chegar, por impulso, comecei a navegar nas páginas dos jornais franceses, das rádios e das televisões. TInha sempre o jornal Observador para acompanhar a informação em português. A Olívia, a minha orientadora de estágio na rádio, começou também ela à procura de outras informações nos sites de informação em contínuo. 

E olhávamos com atenção para aquilo que a televisão mostrava: os nomes das vítimas, os pormenores macabros, o "Allahu Akbar", os vídeos em direto de tudo o que estava a acontecer filmado por outros jornalistas de um jornal das imediações, os vídeos nas redes sociais, os nomes dos convertidos a uma versão errada da religião.

Relembro os funcionários e colaboradores da rádio que passavam pela redação e ficavam a olhar para a televisão, pasmados com algo que julgavam impossível: um ataque "no coração da Europa". 

Depois, as quarenta e oito hoas: a procura dos dois irmãos, o surgimento de um terceiro convertido, o terror instalado nos autocarros e comboios, as imagens macabras, o fim à Hollywood em que os convertidos morreram "à la" martir... porque quem é de Alá, quando morre, é como mártir, dizem eles...

... como mártir de coisa nenhuma, dizemos nós! 

Passado um ano, o terror reina num mundo que quer paz. Os atentados de sexta-feira 13 de novembro provam que "eles não se puseram a jeito". 

Continuamos a lutar pela liberdade. Neste momento, já não é liberdade de pensamento e de dizer o que queremos: é a liberdade de viver segundo as nossas escolhas. 

Em suma, continuo #jesuischarlie

Journalists are not the owners of freedom of speech, only its servants.

- Riss in "Charlie Hebdo", nº1224

09
Nov15

Nas noites frias de novembro...

Quando era pequeno, como todos os rapazes, gostaria de me tornar jornalista. E professor. E bombeiro. E jogador de futebol. E mais isto. E mais aquilo. Com o passar dos anos, provou-se que não tenho jeito nenhum para jogar à bola. Salvar pessoas de prédios em chamas, também não é, propriamente, a minha praia. 

Tudo isto para dizer que, apesar de todas as vicissitudes da vida, nasci num, chamado, "berço de ouro": nem sempre o que eu pedia os meus pais me davam mas vivia, dentro dos possíveis, com alguma estabilidade financeira para receber, de vez em quando, um brinquedo ou outro. 

Nunca, na minha vida, eu quis, quero ou quererei ser o centro da atenções seja do que for. Não é algo que está em mim. 

"A solidariedade, essa, é algo que me assiste. Sempre que posso, doo algo ao banco alimentar"

[Sim, como se isso fosse solidariedade].

É deste tipo de hipocrisia que eu falo. Somos todos solidários... até que chegam refugiados e se lembram dos sem abrigo. Quando a vaga de refugiados terminar, os sem abrigo voltam ao esquecimento nos seus cartões numa travessa qualquer. Mas todos continuamos a ser solidários porque contribuímos com 1€ para a Missão Sorriso, quando compramos um livro de receitas que ninguém vai ler ou um CD que poucas vezes vai ser tocado. 

Somos hipócritas: em todos os sentidos. E eu me incluo nesta hipocrisia. 

E porquê este intróito? 

Hoje fui a uma superfície comercial de Vila Real. Fiz as minhas compras e à saída deparo-me com um senhor, com uma criança ao colo, que me disse: "Dê-me qualquer coisa para o meu filho!". Como muitos que saiam do supermercado, àquela hora da tarde, ignorei o senhor e a criança. 

Ignorei-os como faço a todos os pedintes... como todos nós, abençoados pela divisão da riqueza, fazemos a todos os pedintes. 

O meu plano era simples: pousar as coisas no carro e voltar lá dentro à superfície comercial para verificar um produto numa loja. E foi isso que fiz. Pousei as coisas e voltei lá dentro. Quando saí, voltei a encontrar o senhor. E novamente repetia a frase "Dê-me qualquer coisa para o meu filho!". Foi aí que olhei para o homem que não devia ter mais que trinta anos e para a criança, não mais que quatro anos. Estavam ambos de camisa e o rapaz de calções. A noite estava a ficar fria! Aquilo não era sítio para andar ali com uma criança. 

Senti uma espécie de murro no estômago: pela primeira vez, pensei que, daqui a alguns anos, poderia ser eu a estar ali, a pedir por um pouco mais. 

Meti-me no carro, meti a chave na ignição e rodei-a: o rádio ligou-se na Antena 1 e transmitia o debate sobre o Programa de Governo e só falava dos indicadores económicos, das melhorias alcançadas por Portugal durante os quatro anos de Passos-Portas. Retirei o carro do estacionamento e entrei na fila para sair do parque. De um momento para outro, solto um sonoro "que se lixe!" e viro à direita para estacionar novamente. Como é óbvio, levo com buzinadelas. 

Respirei fundo. Não conseguia voltar para casa sem fazer algo. 

Fui ter com o homem e este foi o diálogo: 

 

- Foi você que me pediu para lhe dar alguma coisa há pouco, não foi? 

- Sim, fui! 

- Do que é que precisa? 

- Era um bocado de carne para...

- Mas é para si ou para o seu filho?

- É para ele!

- Muito bem: quantos são lá em casa? 

- Somos três. 

- Ok: fique aqui! Eu vou buscar pão para vocês e papa para o menino, está bem? 

 

Ele assentiu: fui lá dentro outra vez. Comprei pão, bolachas, queijo, fiambre e Nestum. Coisa pouca, eu sei!

Quando saí, o filho estava abraçado ao pai com uma cara feliz. Genuinamente feliz. 

Fui ter com eles, novamente: 

 

- Aqui está. Agora faça-me um favor: vá para casa. Isto não é o lugar para estar com uma criança. 

- Eu sei. - disse o homem timidamente, baixando a cabeça. 

- Como se chama? 

- David!

- Há quanto tempo está desempregado? 

- Há um mês!

- E em que trabalhava? 

- Na agricultura!

- E a sua mulher? 

- Ela não trabalha! Trabalhava nas vindimas e isso mas pouco faz. 

- E o menino? Como se chama? 

- Tiago!

 

Virei-me para o miúdo:

 

- Então, Tiago? Estás por cá? 

 

A ingenuidade de um menino de cerca de quatro anos veio à baila: um sorriso "fanado" iluminou-se na cara do rapaz.

Esse sim: foi um murro no estômago. O Tiago não devia estar ali. Nem o David. Não deviam estar naquele parque de estacionamento. 

 

- Faça-me uma coisa: vá para casa e amanhã, vá à Câmara Municipal. Eles podem-no ajudar! Não é vergonha nenhuma pedir ajuda! Às vezes, a vida prega-nos partidas. 

- Olha, a mamã já chegou... - diz Tiago apontando para o outro lado do parque. A minha cabeça girou e os meus olhos estacaram numa senhora que, ao ver-me, recuou dois passos. 

 

Percebi que a senhora teve vergonha em se aproximar e eu percebi que estava na minha hora de ir embora. 

O David disse-me que já iam para casa, que estavam à espera de um senhor que lhes foi buscar comida. Repeti-lhes para irem à Câmara Municipal e para fazer aquilo, não por ele mas pelo Tiago. Dei um aperto de mão ao menino e disse-lhe: "Foi muito bom conhecer-te!". Ele retribui-me com o maior sorriso que podia. 

Voltei para o carro e observei aquele família por uns breves momentos. E por breves momentos, rolaram algumas lágrimas pela minha cara. Meti a chave à ignição e rodei-a: novamente as colunas do carro soaram Pedro Passos Coelho a defender os progressos económicos durante a sua legislatura.

Desliguei o rádio. Mais hipocrisia, não!

25
Ago15

Um assunto qualquer #02

Estou licenciado há apenas algumas semanas mas, mesmo assim, olho para quem entra concorre ao concurso de acesso. Os resultados saem daqui a alguns dias e todos os anos relembro aquela angústia de receber a mensagem de e-mail do DGES, com letras garrafais, a palavra "Colocado". 

Este ano, não concorri a nenhum concurso de acesso a coisa nenhuma. No entanto, o que dizer aos milhares de alunos do secundário que vão tentar a sua sorte na "selva" universitária? Podia dizer que "vão ser os melhores anos!", que "vão fazer amigos para vida!" e outra frases feitas. No entanto, não: vou optar por contar a minha experiência no ensino superior. 

Estive em duas universidades diferentes: a Universidade do Minho e a Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro [Vila Real]. 

Na UMinho, estudei, durante meio semestre, no curso de Línguas e Culturas Orientais. Com o devido distânciamento, sei bem que não foi a melhor opção. Carateres chineses são gatafunhos muito lindos e o japonês é muito bonito nos animes mas não é para mim. No segundo semestre, tomei a opção de frequentar unidades curriculares de Ciências da Comunicação. E assim fiz! Foi a oportunidade que precisava para ter acesso a experiências na rádio ou no jornal da associação académica. 

Não me arrependo, em nenhum momento, de ter escolhido o caminho que tomei na UMinho. Se não fosse por mais nada, percebi que aquele não era o meu caminho. Sem dúvida que o meu futuro estava no área das letras mas em carateres latinos. 

Chegou o novo concurso de acesso ao ensino superior ao qual me candidatei. Sem sucesso: não consegui entrar na UMinho em Ciências da Comunicação. Optei por parar nesse ano: andei a vender em feiras [sim, fui feirante!] e surgiu a oportunidade de colaborar no Barcelos Popular. Assim o fiz!

Até à minha entrada na universidade, fui a festas, romarias, jogos de futebol [eu que pouco percebo de bola], exposições, festivais, enfim, tanta coisa.

Depois entrei na UTAD. Ainda estava com esperanças de voltar à UMinho. Sentia que aquela não era a "minha" universidade. E assim foi no primeiro ano em que estive por Vila Real: colaborei mais com o BP do que com o meu futuro. No entanto, chegou a uma altura em que tive que escolher entre a universidade e o jornal e essa escolha aconteceu no meu segundo ano em que estive por Vila Real. 

Aconteceu a UTAD TV, a kapa, o akademia. Tudo coisas pequenas que dão bagagem para um futuro próximo. 

E claro: aconteceram as amizades, as brincadeiras, os jantares, a farra, etc. Podia falar de praxe, claro. Mas como só tive a experiênicia da praxe da UMinho [por opção], prefiro não ir por aí! Sei bem que a parte que muitos futuros estudantes têm medo é a praxe mas, se levarem os vários aspetos da praxe na brincadeira [sem entrar em exageros!] e desde que o direito a dizer "não!" esteja salvaguardado, não vejo motivos para ter medo! 

Serão os melhores anos da vossa vida? São, absolutamente! 

Aproveitem as oportunidades que aparecem. Gozem a cidade, a vida noturna, o bar debaixo de casa! 

Acima de tudo, sejam felizes nos anos vindouros! 

P.S.: Se eu me lembrar de qualquer outra coisa, eu adiciono ao artigo. 

 

20
Ago15

Um assunto qualquer #01

Hoje, gostaria de publicar um texto sobre um assunto qualquer: podia ser sobre a política nacional, sobre o IVA na restauração, sobre a última música do Mickael Carreira, dos três livros que comprei no aeroporto à espera de um avião para ir ter com os meus pais que emigraram para outro lugar... gostaria de publicar um texto falando da saudade que tenho de Portugal enquanto passo férias no outro lugar com os meus pais, gostaria de publicar um texto falando da saudade que tenho dos meus pais quando estou em Portugal. 

Ah! A Saudade... que termo tão português! 

Todos nós "troçamos" dos portugueses das camisolas do Figo e do Cristiano Ronaldo, que saem de carros com o símbolo da Federação Portuguesa de Futebol estampados no vidro de trás do carro. É o chamado típico português que fala uma cacharolete de línguas, que já responde "Oui, oui!" em vez de responder "Sim, claro!", ou que manda um "fodasse" para o ar quando está enervado para, logo de seguida, berrar ao miúdo que se está empoleirar no pedregulho da casa da avó "José Miguel, tu vas tamber!"

No entanto, são estes avec's que trazem um novo sentimento à palavra "saudade": saudade dos filhos, dos pais, da esposa, da casa, da comida, da terra, do rio, da paisagem... enfim, de tudo!

E com o tempo, há novos "avec's"... e "with's"... e "con's"... e "mit's"... e "med's"! 

Os jovens que emigraram há uns meses ou anos para outras paragens, voltam agora ao país! Devoram o cozido à portuguesa, os rojões ou o bacalhau, visitam a família que está espalhada por cinco concelhos, combinam saídas e jantares com amigos: tudo isto para acalentar a ausência durante trezentos e cinquenta dias. 

Duas semanas não chega para nada: o pai depressa vê a filha partir novamente, deixando-a ir atravessar a porta que lhe dá acesso à área de embarque do aeroporto. Ou a mãe dá aquele beijo de despedida ao filho dizendo-lhe, à janela do carro (daquele carro com o símbolo da Federação Portuguesa e Futebol estampado no vidro de trás) "Vai com Deus, meu filho!".

Podia perguntar "que país é este que deixa os seus partir?". Mas não: não quero politiciquices quando falo de saudades! Das saudades que se sentem quando já não se sentem o abraço e o Skype não acalenta! 

Vivemos no tempo da globalização em que as pessoas trabalham longe e, no dia seguinte, estão aqui! Mas vivemos no tempo da saudade em que as pessoas trabalham longe mas não estão aqui! 

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