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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

02
Jul18

Os jornalistas

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Lembro-me vagamente de, no final dos anos 90 do século XX, a SIC transmitir uma série chamada "Jornalistas". Contava a história de uma redação do jornal fictício "A Gazeta" e das vidas dos jornalistas dentro e fora da publicação. 

Sei que isto pode ser um cliché mas, apesar de me lembrar pouco da série, lembro-me que foi fundamental para tomar a decisão de seguir jornalismo/a área da comunicação. 

Quase 20 anos depois desta série, o "Gazeta" continua a não existir, o Diário de Notícias acabou como o conhecemos durante anos (em papel nas bancas todas as manhãs) e o Porto Canal parece estar a despedir pessoas. 

Já escrevi várias vezes sobre jornalismo neste meu espaço. Mas o que me leva a escrevinhar é um dos posts mais recentes de Paulo Querido, antigo jornalista, na sua página pessoal sobre a remodelação geral do DN. 

Fui espreitar o DN online. O site foi renovado e está graficamente melhor e mais bem arrumado.

Ou seja: é a mesma coisa melhor embaladazinha. Rigorosamente a mesma coisa: artigos escritos para o papel por jornalistas treinados para o papel são transpostos para páginas web.

Ora, a embalagem não é o problema. A função (logo, o conteúdo) é.

Lá se foi a minha esperança de ter um jornal português para ler, continuo com os meus americanos, inglês e espanhol.

"Artigos escritos para o papel por jornalistas treinados para o papel".

Este é o grande problema! Os estudantes que saem das universidades não estão a ser treinados para o digital. Na universidade, não aprendi o que era SEO mas aprendi que uma notícia completa tinha de ter "antetítulo, título, subtítulo, lead e corpo de notícia". 

Mas como é que fazemos a imprensa adaptar-se a uma "nova realidade" e que seja lucrativa? É que, sinceramente, ainda não percebi. Para onde quer que olhe, os projetos noticiosos não me parecem diferentes entre eles. São artigos longos, uma fotozita para ilustrar a coisa e está feito. 

"As pessoas querem ver gráficos, vídeos e galerias. Querem uma experiência visual", dizia uma professora minha. 

A informação não para e as redações continuam a encolher.

E não há pessoas capacitadas para fazer os gráficos, os vídeos e as galerias porque poucos são os cursos de comunicação que ensinam o jornalista a mexer no Photoshop ou no After Effects. "Para quê?", perguntava um professor meu que foi jornalista da Agência Lusa no tempo em que se chamava ANOP. "Para escrever notícias, não precisamos de Photoshop para nada!".

Obviamente! Como toda a gente sabe, as notícias escrevem-se num papel e enviam-se pelo telefax para Lisboa! 

(Denote-se que este professor também achou um escândalo dois jovens se beijarem na rua. A mentalidade do homem deve ter estagnado em 1973...)

O problema pode ser mesmo esse: a raíz. A imprensa não se adaptou rapidamente às mudanças da internet como a rádio ou a televisão (e, mesmo estes, tenho as minhas dúvidas). As universidades, que deviam ser os "templos do saber", continuam com professores impreparados para o futuro. As empresas de media continuam impreparadas para um público que não ouve rádio, leem as gordas e já não veem televisão de forma linear. Os jornalistas não percebem o contexto em que estão: agora, eles são, para além de jornalistas, repórteres de imagem, fotógrafos, editores e têm de fazer de bombeiro de vez em quando.

Mas ainda há alguém no ativo que acha que as notícias apenas se escrevem. Os jornalistas são jornalistas. Ponto final. Não tiram fotos. Não fazem gráficos e não precisam de saber nada SEO (que, para este professor, deve ser aquela altura em que gatas andam a miar muito pela rua!). 

A olhar para a opinião do Paulo Querido, o problema do DN vem da base: vem de uma redação que, ao que parece, não se modernizou e que não escuta os "novos".

Temos de fazer mais com menos e isso é impossível. Já não se vai ao fim do mundo e, para ir ao fim da rua, tens de ir a pé porque já se vendeu a viatura de serviço para pagar o telefone.

Mas temos de fazer! Somos poucos para defender tanto!

O país não pode ficar sem notícias às 02h, no pior dia de incêndios de sempre, porque os editores decidiram que se o primeiro-ministro já falou e ministra ainda não tinha ido de férias, a agenda do dia estava feita! 

DN, e a Global Media no seu todo, têm a oportunidade de fazer um caminho no digital. Caminho esse que, para mim, ainda está por descobrir. 

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