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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

28
Jun16

Agora somos adultos

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A estudar há algum tempo na universidade, apercebo-me que, cada vez mais, a minha vida cabe em apenas dois ou três sacos. 

Estou a arrumar o meu quarto que me acolheu durante um ano letivo. Tenho que o abandonar até ao fim do mês pois a residência universitária fecha durante os meses de verão "para manutenção". 

Ao arrumar as coisas, apercebo-me que vou voltar à terra que já não é minha. Já não vivo lá. Agora vivo noutra cidade... que também não é minha. Somos de uma terra de ninguém. Vivemos em dois locais, temos dois quartos, duas vidas. 

Ser estudante universitário não é fácil. Se calhar, deve estar a pensar: "Sim, sim: eu bem vos vejo na "dificuldade" nos cortejos acedémicos!". 

Acho que não me fiz compreender: ser estudante universitário deslocado não é fácil.

A nossa realidade muda: o nosso mundo vira completamente do avesso. De um momento para o outro, estamos numa cidade completamente diferente a falar com pessoas diferentes e que serão a nossa "família" enquanto estudamos. 

Aprendemos a lidar com uma vida completamente diferente: a ter que fazer opções porque a nossa conta bancária não estica, apesar dos vinte e cinco euros que investimos na sua abertura. A escolher entre o prazer de ir tomar um café fora ou pegar na cevada e juntar água quente, aquecida no microondas da cozinha da residência; a escolher entre comer uma hamburguer no café ou optar pela costeleta frita, dura como pedra, da cantina;... enfim, fazer escolhas. 

Ativamos o gene do "desenrrasca-te": "os "papás" estão longe e não te podem vir ajudar. Pelo menos, em tempo útil! És maior e vacinado! Tens 18 anos, tens de te mexer!", pensamos nós. 

E agora, eu penso que tenho os dois ou três sacos com toda a minha vida lá dentro: a roupa, roupa de cama, o traje, as camisolas de curso e da academia. Tenho a noção que voltarei a este (ou a outro) quarto no próximo ano letivo. Tenho a noção que encontrarei exatamente tudo no mesmo sítio: as árvores, os cheiros, os passáros. Tenho a noção que o lava-loiças estará entupido, o frigorifico continuará a funcionar mal e a internet não chega para a "encomenda". Tenho a noção que a água vai continuar a sair com ferrugem no primeiro momento em que eu abrir a torneira, que o chuveiro continua a funcionar mal e que a lâmpada flurescente que estava a piscar ainda não foi substituída. 

No entanto, tenho a noção que esta foi e (ainda) é a minha casa onde passo a maior parte do meu tempo. E tenho a noção que a minha "casa" não estará igual: haverá caras novas, novos ruídos, novas amizades. E outras amizades que partem para novos caminhos. 

Os sacos não guardam, apenas, a roupa, roupa de cama, o traje, as camisolas e da academia: guardam histórias, risos, "segredos desta cidade/levo comigo para a vida". Guardam a memória de quando me foi dado o traje, guardam o primeiro smoking que usei na minha primeira emissão da UTAD TV, guardam a camisola que usei quando tentei dizer "amo-te" àquela pessoa especial... guardam a vida no seu sentido mais bonito. 

Aproxima-se o último ano em que eu estarei na cidade que me acolheu como estudante de Ciências da Comunicação. E ainda não me sinto preparado para o mundo dos adultos. Aquele mundo em que as decisões tomadas afetam outras pessoas, condicionando o seu presente e, mesmo, o seu futuro. Aquele mundo em que não tomar decisões também afeta outras pessoas. 

Vejo outros colegas e amigos a partir por outros caminhos. Desejo-lhes boa sorte nas suas escolhas. 

"Agora somos adultos!", dizem. Não, não somos. Somos crianças em ponto grande, cheias de medo para voar. Mas temos de partir: não podemos fazer nada para mudar um passado que não volta. 

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