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Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

20
Mai17

Carta Aberta

Querido Jornalismo, 

Sei que isto parece o início de uma carta que se escreve aquela namorada do 11ºC de uma secundária qualquer mas... eu amo-te. 

Sim, sempre quis ser jornalista e não há outra forma de o ser: temos de nos apaixonar por aquilo que fazemos diariamente, pegar nas fontes, destrinçar o que elas dizem e, no fim, apresentar a informação percetível a quem me lê. 

Foi assim que eu aprendi a fazer-te, Jornalismo: a interpretar a realidade e a relata-la, a descrevê-la para alguém que quer saber mais...

Esperei uns dias para te escrever esta carta... Aliás, já do tempo em que se falam das fake news eu te queria  escrever, Jornalismo.... aliás, a minha vontade de te escrever já vinha do tempo das emissões em direto sem nada para dizer em que olhávamos para um rio transbordado ou para um autocarro virado ao contrário... e ficávamos ali... três horas sem nos mexermos. 

Era algo hipnótico, Jornalismo. Tínhamos/temos um sentimento de voyeur  da desgraça alheia. 

Eu acompanhei o último acidente no IP4 em direto porque tu estavas lá, Jornalismo. O carro  havia-se espetado contra o rail há minutos e tu já estava lá... 

Eu acompanhei o salvamento de duas pessoas em direto durante 45 minutos, Jornalismo. Estiveste lá. Em direto! 

Sempre o direto! 

Sempre em cima do acontecimento! 

Sempre com um compromisso com o leitor/espetador/ouvinte...

Sempre, Jornalismo. 

E eu deixei! E eu e outros colegas deixamos chegar a este ponto. Deixamos que, por todo o mundo, Tu deixasses de produzir notícias para produzir conteúdos; deixamos que Tu fosses feito em direto sem filtro. Desde a tragédia de Entre-os-Rios que entraste num ponto sem retorno: "O que está a sentir?", perguntou um colega! E ninguém o travou! Ninguém! 

Esta semana, ao abrigo da Tua doutrina, um jornal publicou no seu site e emitiu na sua televisão dois vídeos inqualificáveis. E nas redes sociais, sempre ao abrigo das Tuas regras, publicava-se a ligação para o vídeo com um "Veja o vídeo". E ninguém travou o gestor da página em causa de publicar o vídeo. Ninguém travou o jornalista de publicar o vídeo, em vez de o ver, escrever uma notícia e de o arquivar algures num servidor qualquer. 

Ninguém travou esta gente de abusar, novamente, das pessoas que aparecem na imagens. Confesso-te, Jornalismo: não vi os vídeos! Não consegui! 

Porque isto não és Tu: isto não é a profissão pela qual me apaixonei quando tinha quatro anos. Isto não é "compromisso com o leitor": isto são as Tuas regras que só são usadas quando convém e quando dá lucro. 

Sim, Jornalismo: eu ainda estou a falar para Ti! Dizem que Tu és o garante da Democracia tal como a conhecemos. E És. Sem dúvida que o És. 

Mas... 

Estamos a perder-te... Estás a perder todos os dias. Estás a perder aquilo que demoraste anos a ganhar: a credibilidade.

E cada vez mais, somos poucos aqueles que olham para Ti como uma profissão de respeito. Todos podem criar conteúdos mas poucos podem criar notícias. 

Domingos de Andrade, sub-diretor do Jornal de Notícias, escreve hoje que "os telhados são todos frágeis e carregados de telhas de vidro". Sim, todos erramos. O que não se pode admitir é que os mesmos errem constantemente... e, no final se achem certos. 

E Tu, Jornalismo, tens errado constantemente. Sem ninguém que te trave. 

No entanto, como cantam Tom Jobim "Eu sei que te vou amar, por toda a minha vida". 

 

Com muito amor, 

Do Bruno

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