Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Há uma selva lá fora...

Um blogue sobre a selva: observações e comentários de um tipo.

09
Nov15

Nas noites frias de novembro...

Quando era pequeno, como todos os rapazes, gostaria de me tornar jornalista. E professor. E bombeiro. E jogador de futebol. E mais isto. E mais aquilo. Com o passar dos anos, provou-se que não tenho jeito nenhum para jogar à bola. Salvar pessoas de prédios em chamas, também não é, propriamente, a minha praia. 

Tudo isto para dizer que, apesar de todas as vicissitudes da vida, nasci num, chamado, "berço de ouro": nem sempre o que eu pedia os meus pais me davam mas vivia, dentro dos possíveis, com alguma estabilidade financeira para receber, de vez em quando, um brinquedo ou outro. 

Nunca, na minha vida, eu quis, quero ou quererei ser o centro da atenções seja do que for. Não é algo que está em mim. 

"A solidariedade, essa, é algo que me assiste. Sempre que posso, doo algo ao banco alimentar"

[Sim, como se isso fosse solidariedade].

É deste tipo de hipocrisia que eu falo. Somos todos solidários... até que chegam refugiados e se lembram dos sem abrigo. Quando a vaga de refugiados terminar, os sem abrigo voltam ao esquecimento nos seus cartões numa travessa qualquer. Mas todos continuamos a ser solidários porque contribuímos com 1€ para a Missão Sorriso, quando compramos um livro de receitas que ninguém vai ler ou um CD que poucas vezes vai ser tocado. 

Somos hipócritas: em todos os sentidos. E eu me incluo nesta hipocrisia. 

E porquê este intróito? 

Hoje fui a uma superfície comercial de Vila Real. Fiz as minhas compras e à saída deparo-me com um senhor, com uma criança ao colo, que me disse: "Dê-me qualquer coisa para o meu filho!". Como muitos que saiam do supermercado, àquela hora da tarde, ignorei o senhor e a criança. 

Ignorei-os como faço a todos os pedintes... como todos nós, abençoados pela divisão da riqueza, fazemos a todos os pedintes. 

O meu plano era simples: pousar as coisas no carro e voltar lá dentro à superfície comercial para verificar um produto numa loja. E foi isso que fiz. Pousei as coisas e voltei lá dentro. Quando saí, voltei a encontrar o senhor. E novamente repetia a frase "Dê-me qualquer coisa para o meu filho!". Foi aí que olhei para o homem que não devia ter mais que trinta anos e para a criança, não mais que quatro anos. Estavam ambos de camisa e o rapaz de calções. A noite estava a ficar fria! Aquilo não era sítio para andar ali com uma criança. 

Senti uma espécie de murro no estômago: pela primeira vez, pensei que, daqui a alguns anos, poderia ser eu a estar ali, a pedir por um pouco mais. 

Meti-me no carro, meti a chave na ignição e rodei-a: o rádio ligou-se na Antena 1 e transmitia o debate sobre o Programa de Governo e só falava dos indicadores económicos, das melhorias alcançadas por Portugal durante os quatro anos de Passos-Portas. Retirei o carro do estacionamento e entrei na fila para sair do parque. De um momento para outro, solto um sonoro "que se lixe!" e viro à direita para estacionar novamente. Como é óbvio, levo com buzinadelas. 

Respirei fundo. Não conseguia voltar para casa sem fazer algo. 

Fui ter com o homem e este foi o diálogo: 

 

- Foi você que me pediu para lhe dar alguma coisa há pouco, não foi? 

- Sim, fui! 

- Do que é que precisa? 

- Era um bocado de carne para...

- Mas é para si ou para o seu filho?

- É para ele!

- Muito bem: quantos são lá em casa? 

- Somos três. 

- Ok: fique aqui! Eu vou buscar pão para vocês e papa para o menino, está bem? 

 

Ele assentiu: fui lá dentro outra vez. Comprei pão, bolachas, queijo, fiambre e Nestum. Coisa pouca, eu sei!

Quando saí, o filho estava abraçado ao pai com uma cara feliz. Genuinamente feliz. 

Fui ter com eles, novamente: 

 

- Aqui está. Agora faça-me um favor: vá para casa. Isto não é o lugar para estar com uma criança. 

- Eu sei. - disse o homem timidamente, baixando a cabeça. 

- Como se chama? 

- David!

- Há quanto tempo está desempregado? 

- Há um mês!

- E em que trabalhava? 

- Na agricultura!

- E a sua mulher? 

- Ela não trabalha! Trabalhava nas vindimas e isso mas pouco faz. 

- E o menino? Como se chama? 

- Tiago!

 

Virei-me para o miúdo:

 

- Então, Tiago? Estás por cá? 

 

A ingenuidade de um menino de cerca de quatro anos veio à baila: um sorriso "fanado" iluminou-se na cara do rapaz.

Esse sim: foi um murro no estômago. O Tiago não devia estar ali. Nem o David. Não deviam estar naquele parque de estacionamento. 

 

- Faça-me uma coisa: vá para casa e amanhã, vá à Câmara Municipal. Eles podem-no ajudar! Não é vergonha nenhuma pedir ajuda! Às vezes, a vida prega-nos partidas. 

- Olha, a mamã já chegou... - diz Tiago apontando para o outro lado do parque. A minha cabeça girou e os meus olhos estacaram numa senhora que, ao ver-me, recuou dois passos. 

 

Percebi que a senhora teve vergonha em se aproximar e eu percebi que estava na minha hora de ir embora. 

O David disse-me que já iam para casa, que estavam à espera de um senhor que lhes foi buscar comida. Repeti-lhes para irem à Câmara Municipal e para fazer aquilo, não por ele mas pelo Tiago. Dei um aperto de mão ao menino e disse-lhe: "Foi muito bom conhecer-te!". Ele retribui-me com o maior sorriso que podia. 

Voltei para o carro e observei aquele família por uns breves momentos. E por breves momentos, rolaram algumas lágrimas pela minha cara. Meti a chave à ignição e rodei-a: novamente as colunas do carro soaram Pedro Passos Coelho a defender os progressos económicos durante a sua legislatura.

Desliguei o rádio. Mais hipocrisia, não!

02
Nov15

Passaram cinco anos...

Logotipo.jpg

 

Uma vez, alguém me disse: "Não te metas nisso"! E afinal passaram cinco anos!

A rádio kapa, uma das coisas que mais orgulho me dá, fez cinco anos. Cinco anos de amizade, problemas técnicos, família, nervos, problemas técnicos, parvoíce e, só um bocadinho, de problemas técnicos.

Há muito tempo que ela deixou de ser a "minha menina" para ser mais do que isso: ela agora é de uma equipa que se une em torno de valores como a amizade. Com a kapa aprendi a ser uma pessoa melhor porque faço o que eu amo com uma equipa formidável como esta: Angélica​, Márcio​, Ricardo​, Rodrigo​ e Sofia.

Uma vez, alguém me disse: "Não te meta nisso"! Ainda bem que não segui o conselho! Passaram cinco anos...

A emissão continua em www.radiokapa.pt

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D